CONDENSAÇÃO na Barraca e Saco de Dormir? Entenda esse fenômeno!

Essa explicação foi previamente publicada no formato de vídeo no canal do youtube, conforme apresentado abaixo. Se preferir estudar esse tema lendo, todas as informações do vídeo estarão apresentadas na sequência.



Antes de avançarmos no tema da condensação e sua relação com a barraca e o saco de dormir, primeiro precisamos entender dois conceitos. O primeiro deles é a Umidade Relativa do Ar.


Para explicar de maneira simples, vamos imaginar que o volume de um copo de água é a quantidade de vapor de água que o ar consegue segurar, e a água dentro desse copo é o vapor de água. Agora imaginem o ar em três diferentes temperaturas: 30, 20 e 10 graus. Quanto menor a temperatura, menor será o tamanho desse copo, ou seja, menor a capacidade de um ar segurar vapor de água. Agora, ao enchermos esses copos pela metade, todos indicarão uma umidade relativa de 50%, apesar de as três situações terem volumes de vapor de água diferentes, todos indicam a mesma umidade relativa do ar. A imagem abaixo ilustra esse exemplo.


Exemplo de umidade relativa do ar de 50% para três diferentes cenários

Agora imaginem um cenário em que o ar na temperatura de 30 graus está com umidade de 50%, se baixarmos a temperatura do ambiente em 10 graus, a mesma massa de vapor de água agora irá ser carregada por um copo menor, nesse caso, temos um aumento da umidade relativa do ar. A temperatura na qual o copo estará cheio de água representa o segundo conceito que devemos entender, que é o Ponto de Condensação da Água. Qualquer redução de temperatura a partir desse ponto acarretará em transbordamento do copo, esse transbordamento é a transformação de vapor em água líquida que a gente vê no montanhismo em cima dos nossos saco de dormir ou paredes das nossas barracas.


Para melhor entender e fixar esses dois conceitos, vamos olhar para a natureza. Aqui nos cânions do sul ocorre um fenômeno chamado de “Viração”, que é uma névoa úmida que retira a visibilidade dos montanhistas (imagem abaixo).


Fenômeno da "viração" nos cânions do sul do Brasil


A origem dessa viração ocorre da seguinte forma: Os cânions possuem em sua geomorfologia uma mudança abrupta de altitude no relevo em uma curta distância, onde a parte baixa possui altitudes próximas ao nível do mar, e as partes altas atingem altitudes próximas a 1000 metros. Devido a diferença de altitude, as temperaturas da parte alta são menores, podendo ser de até 8 graus mais frio. Ou seja, como é mais frio, o copo de água é menor na parte alta (imagem abaixo).


Variação abrupta de altitude nos cânions do Sul


Essa região mais baixa costuma receber ventos úmidos vindos do oceano em direção a parte baixa dessas paredes verticais, esse ar úmido carrega grandes quantidades de vapor da água, ou seja, elevada umidade relativa (imagem abaixo).


Ventos úmidos chegando do oceano


Ao chegar nas paredes dos cânions esse ar encontra uma barreira geográfica vertical de rocha de basalto e acaba subindo. Enquanto ocorre essa subida, esse ar úmido vai sendo submetido a uma redução gradual de temperatura. Ao chegar lá em cima, a quantidade de vapor de água nesse ar é a mesma, mas o copo diminuiu de tamanho! Conforme esse copo vai diminuindo de tamanho, o nível de água dentro dele vai aumentando até o ponto que a água irá transbordar, e significa o momento que o ar não consegue mais segurar a água no formato de vapor e ocorre a condensação, que é a água líquida representada pelas gotículas da viração.


Vento úmido subindo em direção aos campos de altitude


Essas gotículas irão condensar sobre a primeira superfície fria que encontrarem. No caso dos cânions são nas florestas localizadas nessas bordas, esse fenômeno deixa essas matas bastante úmidas devido a água que se condensa sobre as folhas das plantas, recebendo o nome de matas nebulares. Então, agora já sabemos o que a umidade relativa do ar e o ponto de condensação significam. Agora vamos entender como esses conceitos se relacionam com o interior da nossa barraca. A condensação que a gente vê dentro da barraca tem duas diferentes origens, uma fácil de evitar e lidar e a outra é um pouco mais complicada que precisaremos nos adaptar.


A primeira forma é a condensação que ocorre devido ao excesso de umidade dentro da barraca ocasionada por equipamentos molhados, vapor da panela ou pouca ventilação. Isso fará com que a água do copo vá enchendo até começar a transbordar, ao chegar na umidade máxima, essa água irá começar a se condensar sobre os equipamentos ou nas paredes da barraca. Garantir a boa ventilação da barraca e evitar esse hábitos são o suficiente para lidar com essa condensação.


A segunda forma é a ocasionada pela redução da temperatura e será explorada com maiores detalhes aqui. Vamos imaginar um cenário em que estamos dentro do nosso saco de dormir e a temperatura externa está bastante fria. O corpo na temperatura de 36 graus transpira e aumenta a umidade do ar do seu entorno que está quente (ou seja, o ar nessa região quente tem um copo maior), devido a respirabilidade do saco de dormir, aos poucos esse ar úmido irá se deslocar para a parte externa do saco. Quando a umidade se aproximar do tecido externo do saco, o copo vai diminuir drasticamente de tamanho devido a temperatura exterior mais fria. Se devido as condições do clima essa redução do copo favorecer o transbordamento, ocorrerá a condensação.


Essas gotículas então irão se acumular na primeira superfície encontrada, que normalmente é o tecido do seu saco de dormir (imagem abaixo). É por isso que mesmo dentro da barraca, as vezes o tecido do seu saco de dormir fica úmido em ambientes frios.


Exemplo de condensação por queda de temperatura.


Também poderá ocorrer que essa umidade emitida pela transpiração do corpo não irá se condensar no tecido do saco de dormir (pois a temperatura dentro da barraca está acima do ponto de condensação). Dessa forma, essa umidade poderá se condensar na parede da barraca se a temperatura externa da barraca estiver abaixo do ponto de condensação, pois é comum as barracas terem microclimas que deixam o ar interno mais quente que o ar do lado de fora da barraca (que deixará o tecido da barraca mais gelado que o do saco). Então, dependendo das condições, a condensação só irá se depositar na parede interna da barraca.


Agora imagine que está tão frio que o ar dentro da sua barraca já atingiu o ponto de condensação deixando a umidade relativa em 100%. Quando essa umidade do seu corpo chegar no tecido do saco de dormir, a condensação ocorrerá imediatamente nesse local. Se o preenchimento do seu saco de dormir for de plumas, você irá fornecer umidade para as plumas mais externas que irão perder parte da sua capacidade de expansão. Quando amanhecer, ao guardar o seu saco dentro do saco de compressão, essa região externa mais úmida irá encontrar as plumas mais internas do seu saco, contribuindo para o espalhamento da umidade. Por isso que é importante, sempre que possível, secar bem o saco antes de dormir usando o sol da manhã.


Mas... e se você passar um período prolongado andando dentro de tempo ruim e úmido? Bom, nesse caso será inevitável que a umidade atinja a sua pluma, e isso irá afetar o rendimento do seu saco conforme o tempo de exposição a essa ambiente aumentar. Hoje em dia se utilizam tratamentos hidrofóbicos para repelência a água nos tecidos e plumas (imagem abaixo) para melhor lidar com essa situação. Entretanto, ainda assim, a perda da eficiência irá ocorrer, mesmo que em menor intensidade.


Tratamento hidrofóbico da pluma


Se você irá para expedições longas em regiões de frio extremo, com temperaturas constantemente negativas e com clima úmido, onde molhar o seu saco poderá acarretar em riscos de vida, mas, ainda assim não quer abrir mão da pluma de ganso devido a sua vantagem de peso e volume, você tem algumas alternativas para lidar com esse problema da condensação.


A primeira alternativa é usar um segundo saco de dormir sintético mais fino sobre o seu sistema (over quilt), ele deverá ser usado sobre o seu saco de pluma e irá melhor gerenciar a condensação gerada no seu sistema de dormir (conforme mostrado na imagem abaixo). Pela manhã você poderá retirar esse saco sintético e terá a sua pluma seca na parte de baixo. Uma espessura adequada para esse saco externo sintético é de aproximadamente 6mm, dificilmente a umidade irá atingir regiões mais profundas do que isso. O material APEX é o mais recomendado para esse tipo de saco. Um saco em APEX de pequena espessura terá peso de aproximadamente 300 gramas.


Saco sintético fino sobre o saco de plumas


A segunda alternativa é usar sacos de pluma já projetados para melhor lidar com esse tipo de ambiente, como é o caso do saco que eu uso. O meu saco de dormir para temperaturas bastante negativas possui uma tecnologia que insere uma fina camada sintética entre o tecido externo e a pluma interna. Essa fibra sintética lida muito melhor com a umidade e é mais eficiente para acumular e evaporar a água condensada durante a noite, protegendo de maneira bastante eficiente a pluma.


Camada sintética exterior dentro do saco de dormir


A terceira alternativa é a menos conhecida, porém, talvez seja a mais eficiente, ela consiste em criar uma barreira de vapor na parte interna do seu saco de dormir, essa barreira precisa ser 100% impermeável e irá impedir a chegada da umidade do seu corpo na pluma, isso criará um microclima úmido entre sua pele e essa barreira, contornando o problema da condensação dessa umidade na parte externa do saco de plumas.


Bom, já entendemos bem o que acontece dentro da barraca em relação a condensação, mas ainda não falamos sobre o ambiente externo. É comum as pessoas praticarem o famoso “bivaque”, que significa dormir ao relento sem um teto de tarp ou barraca.


Bivaque nos cânions do sul em uma noite de clima ameno e vento


Quando o sol se põe as superfícies como o solo e vegetação entram em um processo de resfriamento ao emitir radiação para a atmosfera. Esse processo ocorre em maior intensidade em superfícies que não estão em contato direto com o solo (como as folhas das árvores, o teto da sua barraca e o tecido externo do seu saco de de bivaque, por exemplo), pois o solo é um bom condutor térmico e trabalhará para reduzir o resfriamento das superfícies. Outro processo que ajuda a não ocorrer o resfriamento das superfícies é o vento, como o ar perde calor por emissão de radiação em uma taxa menor que as superfícies, então, quando o vento entrar em contato com as superfícies ocorrerá a redução da perda de calor dessas superfícies, pois a temperatura do ar estará mais alta. Outra fator que reduz a perda por emissão de radiação para a atmosfera é a existência de nuvens no céu, árvores ou uma tarp, isso ajuda a refletir de volta essas radiações, reduzindo a perda de calor das superfícies, outro nome muito conhecido para esse fenômeno é o efeito estufa.


Exemplo de resfriamento de superfícies por emissão de radiação


Dessa forma, em noite calmas, sem vento e de céu estrelado ocorrerá o cenário mais favorável para a perda de calor pelo tecido do seu saco de dormir, tarp ou saco de bivaque. As superfícies, ao se resfriarem, também irão resfriar a camada de ar localizada logo a cima dessa superfície, fazendo com que o ponto de condensação diminua, acarretando em condensação do ar sobre a superfície, mas também do ar úmido originado pela nossa transpiração, caso você durma ao relento com seu saco de dormir.


Espero que este vídeo tenha te ajudado a melhor entender esse fenômeno e deixado sua percepção da natureza mais interessante. Se gostou desse artigo, curta, comente e se inscreva nas mídias sociais do canal. Obrigado.

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© 2020 por Graxaim Congelado.