Opinião: 20 escolhas que eu considero equivocadas para reduzir peso no Trekking e Montanhismo

Atualizado: 1 de fev.

A seguir irei opinar sobre escolhas que eu considero equivocadas e que já vi pessoas fazerem para reduzir peso na mochila. Andar com um mochila ultraleve é muito melhor, todo mundo já percebeu, mas tudo tem limite. Lembrem que é só a minha opinião e vocês podem discordar nos comentários, eu não irei apagar o comentário de ninguém que discordar de mim.

1) A primeira é não carregar um kit mínimo de 1° socorros: Esse é um grave sinal de que você foi longe demais, um kit enxuto e eficiente vai pesar algo próximo de 100g. E não basta só carregar, também é preciso saber usar o que tem dentro, se você é um montanhista autônomo ou tem alguma responsabilidade sobre outras pessoas, faça um curso de primeiros socorros longo e sério. Com certeza não será em um cursinho online de meio turno que te ensinará a se virar numa situação difícil. Eu tenho a certificação WAFA da WFR, esse é um curso intensivo de quatro dias que abre a cabeça sobre o que fazer em situações inesperadas (elas acontecem).


2) A segunda escolha é não carregar tratamento de água de nenhum tipo, nem água sanitária, e ainda usar o argumento de que o seu tio do interior de 80 anos sempre bebeu água de fonte e está cheio de saúde. Eu entendo que risco (que é um tipo de probabilidade), não é algo que todos compreendem, mas, burrice tem limite. Duas gotas de água sanitária (ou hidroesteril) por litro já reduzem em muito o risco. Para entender melhor os tratamentos, assista esse vídeo abaixo.


3) A terceira é cortar todas as etiqueta dos equipamentos. São nessas etiquetas que estão as informações de lavagem do produto, e o mais importante, as que garantem que você possa acionar a garantia do equipamento. Quando a minha jaqueta de chuva da Arcteryx começou a descascar, eu acionei a garantia e me pediram a foto da etiqueta interna do bolso, isso foi fundamental para que a troca fosse possível. Contudo, etiquetas que atrapalham, como as que ficam na gola de camisetas ou as que estão em equipamentos baratos, cortar não me parece um problema.


4) A quarta é não carregar comida o suficiente. Andar sem comida o suficiente é possível por um tempo, você irá perder peso e poderá usar as reservas do corpo para compensar. O problema é quando mais pessoas andam com você, elas que terão que aguentar essa pessoa chata e mal-humorada com fome. A melhor forma de andar no ambiente natural definitivamente não é passando fome, muito pelo contrário. A demanda de energia é diferente entre as pessoas, pra mim, um valor mínimo de 2500kcal por dia é um bom parâmetro mínimo, abaixo disso, eu sempre me arrependi. A comida é a forma mais inteligente de reduzir peso na mochila, sem abrir mão de nenhum conforto. As comidas secas misturadas tem sido a minha escolha e costumam somar algo entre 700 e 800g de comida por dia. O vídeo abaixo mostra um exemplo de comida seca para travessias que eu faço.



5) A quinta é usar um isolante inflável e apenas um Polycryo como piso principal: Esse é o clássico cenário que fará você acordar no meio da noite com o isolante inflável vazio. Não faça isso. Leve um piso de barraca de nylon decente ou até mesmo um fino EVA de proteção para o seu isolante. Eu já usei polycryo como piso para o meu isolante inflável em alguns cenários, mas somente em situações atípicas e que eu tinha certeza de que o piso não oferecia riscos, como em cima de areia, por exemplo (imagem abaixo). Adotar essa prática como regra te levará ao chão. Outra alternativa é usar algum piso com grande resistência a perfuração como o Etaflon.



6) O sexto é continuar usando um isolante de célula fechada fino em locais de solo compactado, mesmo sabendo que na grande maioria das noites você acordará dolorido ou passará a noite se revirando e com frio. Se você é magro como eu, dificilmente dormirá bem diversas noite seguidas com um isolante de célula fechada (a não ser que capriche na dose de ibuprofeno). Se você dorme de lado, então a coisa fica mais séria ainda, fuja desses isolantes. Quanto mais tempo de trilha, mais falta o quadril sentirá de uma noite bem dormida. Isso fará você planejar travessias com mais noites acampando, sem ficar pensando a todo momento quanto falta até a pousada mais próxima. Lembrando que quanto mais pousadas você ficar, mais gastos acumulados terá, e rapidamente o custo de um isolante inflável decente (aqueles que não furam com frequência) se pagará. A imagem abaixo mostra a minha combinação de isolante inflável e CCF juntos.



7) A sétima é não levar estacas e cordeletes de ancoragem o suficiente em locais expostos e com muito vento. O estaqueamento correto de uma barraca é a garantia de que você passará bem e conseguirá dormir durante um período com clima mais exigente, isso é ainda mais fundamentável em barracas que não são autoportantes ou em tarps. Além de levar estacas e cordeletes suficientes, não esqueça dos tapa ouvidos. Pois a noite é feita pra dormir, e não para ficar com medo que a barraca saia voando. Lembrem de que o solo é fator determinante no tipo de estaca adequado, em solo muito macio como os encontrados nos Aparados da Serra, você precisará de estacas mais longas que as tradicionais. Também é possível improvisar o estaqueamento com pedras, mas essas nem sempre estão disponíveis. O segredo de uma barraca que segura bem ventos é ter bastante tensão nos painéis, barracas murchas refletem menos vento e aumentam o risco de falhas (também jogam mais condensação na sua testa).


8) A oitava escolha equivocada é aparar os cabelos da escova de dentes. Cortar o cabo da escova é ótimo para diminuir o tamanho dela e facilitar o armazenamento dentro de um higiênico ziploc (foto abaixo), lembre de deixar ela de um tamanho que você consiga escovar os dentes sem precisar botar a mão dentro da boca. Agora, se você está cortando os fios da escova, minha humilde opinião é de que você foi longe demais, se for fazer isso, fique atento! pois os haters de ultralight irão se sentir incomodados.



9) A nona é não levar um fleece como camada ativa para andar no frio. Todo mundo que já andou com vento e chuva, ou ambos, em temperaturas baixas sabe como é uma miséria não ter algum tipo de isolamento sintético eficiente embaixo do corta-vento ou jaqueta de chuva, o material fleece é excelente para lidar com clima úmido. Eu sei que o seu checklist fica mais leve e sua mochila com menor volume sem um fleece fino, mas... sadomasoquismo tem nas grandes cidades também, não precisa ser na trilha. Hoje eu considero o fleece da quechua MH500 a melhor escolha pensando em custo benefício (foto abaixo).



10) A décima é cortar a barrigueira da mochila em mochilas frameless. Mesmo nas mochilas sem estrutura, o uso de algum tipo de fita na barrigueira (foto abaixo) trabalha transferindo parte da carga pro quadril e melhorando o equilíbrio e distribuição do peso. Cortar essa fita para economiza 30g é uma péssima escolha. Nossa musculatura dos ombros é fraca e pouco adaptada para carregar muito peso. Em alguma necessidade de carga maior, será óbvia a dor no local após um dia inteiro. Além disso, essas fitas deixam a mochila mais estável junto ao corpo. Quanto mais uma mochila é bem montada e compactada, melhor será a contribuição dessa fita.



11) A décima primeira é não usar proteção nas pernas para cobras quando andar em locais quentes no verão, com vegetação alta e sem boa visibilidade do terreno. Novamente, risco é uma probabilidade, não entender que nesses climas as cobras estão mais ativas e são um risco real, é rodar a roleta. No calor, use perneira!


12) A décima segunda é optar por não levar fogareiro e combustível para comer comida quente num ambiente frio só para economizar peso e volume. Comida fria em clima frio destrói a sua alma e te deixará um pessoa sem amor próprio e amarga, fuja disso enquanto é tempo. Já se o seu objetivo na trilha for a miséria e a autodestruição, nesse caso, será uma boa escolha. Sempre lembrando que o fogareiro pode ser o seu backup de tratamento de água e uma ferramenta para gerenciar alguma hipotermia. Hoje em dia um sistema de cozinha a álcool é ultraleve e barato, atualmente tenho recomendado para todos que não querem gastar muito o kit cozinha da OMA Gear (link).


13) O décimo terceiro é andar e acampar em locais de clima tropical e subtropical em dias mais quentes com florestas como a nossa mata atlântica e não levar proteção contra insetos para você ou para o seu abrigo. Essas matas são hotspots de biodiversidade (link) e você não tem a menor ideia do que existe aí dentro. Repetir pra você mesmo que um risco não existe infelizmente não faz ele desaparecer. A foto abaixo mostra um escorpião nos Aparados da Serra.



14) O décimos quarto é optar por tecidos de barracas que são sabidamente frágeis e pouco duráveis para conseguir deixar a mochila mais leve. Um exemplo recorrente são as barracas com tecidos muito finos, como de 10D e as vezes até mesmo de 15D. O mesmo se aplica ao DCF, todo mundo sabe da fragilidade desses materiais quando usados em espessuras muito finas. A minha barraca, por exemplo, foi comprada no tipo de tecido .74oz, que é só 50g mais pesada que a sua versão mais leve com tecido 0.51oz, mas que sabidamente dura muito mais e é mais forte em clima ruim. A imagem abaixo mostra a barraca Lanshan (versão 15D parede dupla) de um amigo que rasgou durante uma noite de vento nos Aparados da Serra. Para barracas em Silnylon, eu pegaria algo de 20D pra cima e de marcas confiáveis. Uma boa barraca acessível aos Brasileiros é a Lanshan na versão PRO (link) com tecido 20D (silicone dos dois lados) em parede simples, cantos reforçados com nylon ripstop e revestimento silicone/silicone (dura muito mais).



15) O décimo quinto é andar em locais com trilhas pouco estabelecidas e não proteger as canelas. Trilhas no brasil costumam ser fechadas e com muito atrito de vegetação. Não levar algo para proteger as canelas por causa do peso deixará suas canelas bastante castigadas. Pode ser um calça, uma polaina ou um pernito (foto abaixo), todas essas opções irão proteger razoavelmente suas canelas do atrito com a vegetação. Para trilhas abertas, isso não é necessário.



16) O décimo sexto é não levar bastões de caminhada para economizar peso, de fato, eu sei que os bastões requerem mais energia do seu corpo e não são necessários em todos os tipos de trilhas (em algumas até atrapalham). Contudo, o benefício que eles oferecem ao longo de um dia inteiro valem cada grama, principalmente nas descidas onde é possível descer com mais velocidade e segurança. Sem contar os inúmeros tombos que eles evitam. Uma grande vantagem deles é a dupla função, ou seja, poderão ser usados como estrutura da sua barraca, que acabarão compensando o peso de varetas de barracas autoportantes. A imagem abaixo mostra barracas usando os bastões na estrutura, que se bem ancoradas, aguentarão mais vento que as autoportantes convencionais.



17) Outra é usar poncho-tarp (proteção contra chuva que também é a sua barraca) para economizar peso em climas frios e úmidos. Trilha no brasil sem atrito são coisa rara, usar seu único abrigo no corpo ao longo de todo o dia é um exemplo clássico que de que você foi longe demais, qualquer rasgo irá comprometer um dos equipamentos mais fundamentais da sua mochila. A não ser que a trilha seja uma caminhada em estrada de chão (isso não é trilha), você com certeza irá danificar a sua proteção contra a chuva em algum momento. Poderá ser em vegetação, passando por baixo de uma cerca, sentando no chão, etc. Além disso, alguns desses equipamentos, quando usados como abrigo ou roupa de chuva costumam oferecer pouca proteção e retenção de calor, algo importante para clima frio e chuvoso. O microclima formado dentro de abrigos bem fechados aumenta facilmente em 5 graus de temperatura de um sistema (menos convecção). Eu tenho monitorado a muito tempo o desempenho dos meus equipamentos e o microclima que a barraca ajuda a criar, reduzindo muito a chance de passar frio. A imagem abaixo mostra a diferença de temperatura dentro e fora da minha barraca bem fechada em uma noite fria.



18) A décima oitava é economizar peso não levando backup de navegação. Você sempre deve planejar sua trilha com muita margem de segurança para não ficar sem uma ferramenta de navegação. A alternativa mais simples é um mapa e compasso. Mas hoje em dia é mais fácil (e prático) pensar em redundância com eletrônicos. O vídeo abaixo explora um pouco esse tema da redundância.



19) A décima nona é levar a faca do Rambo e negligenciar todos os outros equipamentos importantes (que possuem peso), pois a faca é tudo que você precisa para sobreviver.


20) A última é só olha para o peso da barraca e não para o tamanho. Obviamente barracas menores possuem menor peso, o problema é quando você tem 1,90. Isso fará você passar a noite com a cara colada no tecido com os pés do saco de dormir sempre molhados. A barraca mais leve do mercado é aquela que não te deixará na mão e é adequada para o seu tamanho.


Então, agora é sua vez, o que você já fez para ir mais leve e rapidamente se deu conta do erro? Comente! O canal tem usado o Instagram para divulgar conteúdo com maior frequência, então, caso queiram mais conteúdo, sigam o perfil. Obrigado.

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